“AMAR O PORTO” – artigo de Helder Pacheco

Hélder Pacheco, Professor , e escritor

Embora a pós-modernidade avassaladora que nos conduz de défice em défice até à vitória final, daqui por outro milénio, considere estas coisas pirosas, retrógradas e, quando não, reaccionárias, penso que, em muita gente, continua a existir um vivo sentimento de pertença ao Porto.

Sentimento expresso em laços que se atam, firmes, em íntimas ligações afectivas com os lugares, em entranhadas formas de identificação com a cidade, nas suas grandezas e misérias, nas suas aspirações e desconcertos. Expresso naquilo que os provincianos em geral e em particular os mais de todos, que são os da capital do Novo Império, consideram a pior baixeza o bairrismo portuense. A isso, alguns – não sei quantos – tripeiros gargalham e não será o “patriotismo global” e a modernidade do couce (querendo dizer para trás, atrás, na retaguarda onde continuamos, não obstante Mestre Camilo ter escrito que o país entrava no futuro aos couces), que os fará esquecer de tal atributo.

Bairrismos. Por exemplo, um jovem ex-autarca e ex-político (daqueles de que o país precisa activos, competentes e, sobretudo, íntegros e que, talvez, por isso se afastam desta lamentável comédia de costumes a que assistimos diariamente), escreveu-me dizendo: penso que gostaria de saber que dei um pequeno contributo, ou melhor, dois pequenos contributos para inverter a taxa de natalidade do nosso Porto. No dia 26 de Janeiro nasceram, em Paranhos, o Francisco e o João. O próximo passo pretendo que seja o regresso ao Porto, em 2008. Não é isto uma prova de amor e fidelidade à cidade? Pois que regresse rapidamente ao Burgo e, se possível, à política, onde faz muita falta. E vivam os dois neo-tripeiros!

Também de um amigo – como eu nascido na Vitória – professor catedrático na Universidade do Minho, onde se exilou, recebi carta emotiva e repleta de nostalgias da sua infância portuense, de que, pelos vistos, não quer libertar-se, nem quer esquecer. É uma maravilha e, entre outras coisas, diz (a propósito de uma foto sua, com outra companheira de infância) “Apesar da idade que tínhamos a Lili e eu, ficamos bem na fotografia, de pose, que tirámos no estúdio fotográfico que ficava, também, na nossa rua. Era um rés-do-chão, creio que pegado à casa em que vivia o Carlos Alberto Enes e sua irmã Fátima, que foi o meu primeiro “namorico””.

Na realidade pisei pela primeira vez o palco, com cinco anos pela mão da família Resende e até aos meus 15 anos fui representando, fazendo rir e cantando, normalmente em solo, inserido nesse grande clube que era o Rádio Clube Infantil. Várias árias de óperas eram adaptadas para português e de forma jocosa. Aquela que cantei com a Lili era da ópera Genoveva, de Schumann. Todos os textos tinham o dedo de D. Emília Resende e de seu filho Resende Dias.

Outras se seguiram, terminando com “La Donna E Mobile”, num espectáculo no Coliseu cheio, em que fui compère, na roupagem de um sinaleiro e por isso cantava um automovilé, dois automovilés e seguia-se toda a ária, com adaptação da letra nesta base.”

E, adiante, conta “Frequentei o Chave d’Ouro e o Tropical, na Batalha, onde convivi com a Dalila Rocha e o Jaime Valverde. Também na minha lista constam o Palladium, o Avis e o Estrela. Joguei muito bilhar no Palladium: livre, 104, sargento, 3 tabelas, etc. Quando veio o snooker, ao disputar o torneio da cidade, fui ao Rivoli, ao Café Novo e à Confeitaria Peninsular.”

E mais evoca “Veio-me à memória a recordação dos “trampolineiros”, que vendiam banha da cobra na Cordoaria, sempre acompanhados do seu macaquinho. Recordei as vezes que, miúdo como era, acompanhava a minha criada à Adega Macedo para encher o garrafão de vinho para a semana e ir a uma casa, nos fundos, que depois passou a ser o Avis, comprar petróleo, carvão e carqueja. Acompanhei muitas vezes a minha avó ao Mercado do Anjo e ao do Peixe, junto às Virtudes, agora Palácio da Justiça.”

E ainda à frente “Frequentemente admirei a miniatura do eléctrico que se encontrava dependurado num armazém de fazendas, lembrando o desastre provocado por um grande “amarelo” que, ao descer a Rua das Carmelitas (e não a da Assunção), não conseguiu fazer a curva para descer os Clérigos e espetou-se nesse armazém, que à porta sempre tinha um caixeiro a chamar a clientela.”

E, depois de mais considerações, remata “A carta já vai longa, a saudade e as recordações são muitas e ao escrever sempre me vieram ao rosto algumas lágrimas.” (Entendem o que é o sentimento de amar o Porto, esta cidade única, dramática e – apesar de tudo quanto lhe têm feito – nobilitante e inesquecível?)

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S. João do Porto

Nome da Canção: S. João do Porto
Intérprete: Artur de Sá
Outros: Arranjos musicais de Resende Dias

Artur de Sá

 

Comentário de Miguel Ângelo Catarino Vaquinhas, no YouTube
Publicado a 23/06/2017

Esta gravação data de 1958 e pertence à Banda 1 da Face B do disco EP de 45 R.P.M. editado em 1978, 20 anos depois, pela marca “Parlophone”, etiqueta “Valentim de Carvalho”, de seu nome “S. João do Porto”, em que os cantores portuenses Isabel Silva e Artur de Sá interpretam quatro marchas populares do Norte de Portugal.
Esta é a marcha “S. João do Porto”, uma bela e animada moda popular oriunda do nosso folclore, que hoje é muito impopular no grande público, com arranjos musicais do grande compositor Resende Dias, aqui interpretada pelo Conjunto Típico e Sexteto Vocal Masculino, ambos da Emissora Nacional, e dirigidos pelo maestro Resende Dias, cuja obra e legado tem sido divulgados constantemente pelos membros da sua família, nomeadamente pela sua filha, a minha querida amiga Teresa Resende.
Graças a esta importante divulgação, o nome de Resende Dias tem sido resgatado do esquecimento, e tem sido alvo de análises e estudos de todos os especialistas da história da Música Ligeira Portuguesa.
Este registo foi retirado da compilação histórica “Santos Populares – Marchas e Canções”, editada em 22 de Junho de 2010, dois dias antes do São João, 2010 pela IPLAY/Valentim de Carvalho, que reúne 20 marchas e canções relacionadas com os Santos Populares, e que já não se encontra facilmente no mercado habitual.
Curiosamente, a editora atribuiu as autorias a Artur Ribeiro e Ferrer Trindade, que foram efectivamente autores da rabela “São João do Porto”, mas cuja rabela é uma criação de Maria Amélia Canossa, e em nada se assemelha com esta moda popular do Folclore Português.
Mais uma cantiga integrada no ciclo “Santos Populares – Marchas e Canções”, destinado exclusivamente à divulgação de marchas e cantigas relacionadas com a época festiva em que vivemos.
Espero que gostem e BOAS FESTAS PARA TODOS!

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