Nos noventa anos de Mestre Júlio Resende – artigo de Luis Cabral

Nos noventa anos de Mestre Júlio Resende

Luís Cabral

Minha mãe, Emília Resende da Silva Dias, por seu lado, era o que poderá dizer-se uma mulher singular. Incrível que pareça, recebera de meu próprio pai, em menina, as primeiras noções de música. Entre ambos havia uma notória diferença de idade (…).

A mãe, era o “vulcão” da família. De sonho em sonho, perdia muita vez o pé à realidade do meio. Respirava música dia e noite, e, quando enferma, via-a sempre escrevendo música. Havia sido professora no Conservatório e manteria, por muito tempo, lições particulares que enchiam a casa de sons de Liszt, Cherubini, Chopin, Debussy e tantos outros que ecoavam na clarabóia, ao cimo da escada.

Júlio Resende – Autobiografia

Em Emília Resende confluíram qualidades e actuaram circunstâncias que fizeram dela uma mulher que, inegavelmente, se realizou como artista e mãe de artistas, como educadora na acepção mais completa da palavra, favorecendo conhecimentos, afectos, gostos e talentos.

Nesta destacada família da Travessa de Sá Noronha (na actual Rua Actor João Guedes), encontramos uma significativa presença das artes, antes de mais da Música – o violino e a viola, o piano e o canto, a composição e o acordeão, instrumento então muito em voga. Mas também o teatro e o circo, as artes plásticas eram parte deu um mesmo pano de fundo cultural.

Recuando no tempo, pode dizer-se que a zona do Moinho de Vento tinha, desde o séc. XIX, um ambiente favorável às artes. Lembremos o Palacete dos Balsemão, mais tarde dos Viscondes da Trindade, com os seus bailes e serões. A partir de 1897, o Teatro Carlos Alberto, com as suas valências circense, musical, teatral e, mais tarde, cinematográfica. No Moinho de Vento ficou ainda a memória do Centro Artístico Portuense (1880 -1893), congregou artistas como Soares dos Reis, Marques de Oliveira, Pousão, Emílio Biel, Aurélio da Paz dos Reis, etc. Mais além, em Cedofeita, o Salão Silva Porto, de grandes tradições, onde Júlio Resende viria, mais tarde, a aprender e a expor.

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Mas lugar importante neste panorama era, sem dúvida, o do Conservatório de Música. Praticamente gratuito, central e servido por transportes públicos, desempenhou, a partir de 1917, um papel fulcral na formação musical de alunos das diversas classes sociais do Porto e da região.clip_image002 Deste lado da Cidade, como suporte a toda esta actividade tinham surgido, em complemento, estabelecimentos de venda e reparação de instrumentos musicais, que se dedicavam também ao comércio e, por vezes, à edição de partituras.

Emília Resende da Silva Dias nasceu no Porto, freguesia de Cedofeita, na Rua do Almada, filha de Joaquim Maria da Silva e de Amélia de Jesus Resende da Silva. Casou com Manuel Martins Dias, pequeno comerciante com estabelecimento no rés-do-chão da habitação familiar. Tiveram quatro filhos: António, Júlio, Maria Emília e Maria Fernanda.

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Estudou violino e piano no recém-criado Conservatório de Música do Porto. Nos primeiros anos de existência desta escola (1918-1920), o seu nome figura como executante ora de um ora de outro instrumento, nos programas dos chamados “Exercícios de alunos” (audições escolares). É mesmo a única aluna a tomar parte nas sessões de Música a cargo dos professores e destinadas à formação dos discípulos. Mais tarde, foi professora do mesmo Conservatório.

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Na sua casa teve, durante anos, uma escola particular, o Círculo de Iniciação Musical, frequentado por muitos alunos e alunas. Entre eles, destacam-se o violetista e professor José Luís Duarte e o maestro Alberto Bastos Nunes …

A Mestra tinha o hábito de, no salão de sua casa, apresentar periodicamente os alunos. Outras vezes, fê-lo em espaços como Casino da Póvoa, Teatro Carlos Alberto, Teatro Rivoli, Coliseu, Olímpia, Club Fenianos, Teatro de Vigo, Colégio de Nossa Senhora do Rosário, Hospital Maria Pia, …

Como é natural, foi dela que os filhos receberam as primeiras noções de Música, tendo António, que conhecemos como o Maestro Resende Dias, seguido a via profissional. Lembra Mestre Júlio Resende, na sua Autobiografia, que aos domingos, a família formava um conjunto musical e todos nele participavam, pegando em qualquer instrumento.

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Dedicou-se também à composição musical, tendo uma ou outra peça sua tido edição impressa. É o caso de Páginas Portuguesas, op. 2, n.º 1 Paisagem. Na contracapa, anunciava-se, da mesma série Paginas Portuguezas, o op. 2, n.º 2, Romaria e, em preparação, o álbum Para os Meus Filhos. Note-se que, em 2006, foi publicado, no Brasil, num CD de Música para piano, esta peça Paisagem, numa antologia com o título Viagem, pela pianista Valdilice de Carvalho.

Por último, refira-se que Emília Resende integrou a formação inicial da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, em 1948, no naipe de violas, dando assim o seu contributo para o êxito desta importante iniciativa.

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Se bem que de modo imperfeito, aqui fica um esboço da vida e acção de uma das nossas professoras de Música, que, para além do círculo dos afectos da própria família e da memória dos antigos alunos, a Cidade, grata, tem o dever recordar.

 

 

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